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Trabalho de Argumento e Roteiro II / 2010.1
Como disse um dia a Clarice Lispector: "Suponho que me entender não é uma questão de inteligência, e sim de sentir"...
Frio e calor
Sentia.
Sono e insônia
Deitava.
Silêncio ou música?
Ouvia baixo.
Aumenta, abaixa...
Som.
Indecisão.
Da paixão estava certo
Do que sofria?
Sofria de tédio.


Pierrot, le fou (1965) é poesia, mas também música, pintura, cinema, principalmente literatura. P-o-e-s-i-a.
O filme está repleto de referências e a maior delas é o poeta de espírito revolucionário Arthur Rimbaud, o que explica a identificação do cineasta com o escritor.
Bebi do artigo “Escrever com a câmera” de Mário Alves Coutinho, pois que não conheço a vida e a obra de Rimbaud. Segundo o autor existem traços biográficos do poeta em personagens de Pierrot, le fou, Rimbaud foi traficante de armas na África, e no filme o suposto irmão de Marianne também.
Ainda é possível identificar referências ao poeta quando o casal foge atravessando a França, abandonando a civilização, buscando a natureza, indo até a praia onde passaram a viver. O casal Ferdinand e Marianne, citam o poeta após roubar um galaxy e entrar com o carro no mar, citam o “Une saison en enfer” ou “Uma estação no inferno”:
Ferdinand: Capítulo oito...
Marianne: Uma temporada no inferno
Ferdinand: O amor está para ser reinventado
Marianne: Vida real é outra coisa.
É preciso encarar a realidade e não viver apenas da fantasia dos livros. Em outro momento do filme quando há uma discussão entre o casal, Marianne está cansada do lugar onde vivem, isolados, está cansada de enlatados, de usar o mesmo vestido. Ele quer livros, ela quer viver, quer ritmo. ...“Você me fala com as palavras, eu te olho com os sentimentos”... Ela diz.
Além de Rimbaud, Godard também faz referência a outros escritores. Marianne fala em Júlio Verne, diz que ambos já bancaram o Júlio Verne o suficiente e que precisavam voltar ao filme de gangsteres, com armas, carros rápidos, clubes noturnos.
Allan Poe também está lá citado por Ferdinand desta vez, momentos antes do assalto ao galaxy. “Ele encontrou seu duplo na rua. Ele procurou em todos os lugares para matá-lo. Uma vez que conseguiu, percebeu que tinha sido a ele próprio que ele havia matado, e o que restava era seu duplo”.
O duplo de Ferdinand seria Pierrot?
Segundo Mário Alves Coutinho, ao chamar Ferdinand durante todo o filme de Pierrot, Marianne faz referência ao amante da “Commedie dell’art” que nunca consegue o amor de volta. Será que ela prevê o fim trágico do casal?
Mas, Pierrot também é uma referência ao pintor Renoir e o seu quadro “Pierrot mascarado”. Alguns quadros do pintor ainda aparecem no apartamento onde mora Marianne, visto ainda no início do filme.
Também são dadas referências do cinema e da música, Ferdinand fala em “Johnny Guitar” e poucos minutos depois na cena em que vemos o movimento dos carros na noite parisiense na Avenida Champs Elysées ouvimos a quinta sinfonia de Beethoven.
Em Pierrot, le fou como também em outros filmes Godard brinca com a aproximação brechtiana (quando o ator se dirige ao espectador), quando o casal está indo em direção a praia com o galaxy e Ferdinand se volta para câmera e diz: Tudo o que ela pensa é diversão! E então Marianne pergunta a ele com quem ele está falando e Ferdinand/ Pierrot responde que fala com a platéia.
Preciso escrever ainda que são belíssimas as cenas em que Anna Karina canta as canções “Jamais je ne t’ai dit que je t’aimerai toujours” e “La ligne de chance”.
http://www.youtube.com/watch?v=1YeWXAmpkUI
http://www.youtube.com/watch?v=vBNn38ZNUXI&feature=related
Politique
No período em que filmes como Pierrot, le fou, La Chinoise, Duas ou três coisas que eu sei dela, foram realizados o diretor fazia parte do Grupo Dziga Vertov, na década de 60 e esse certamente foi o seu período mais político.
Apesar de toda a poesia e do romance de Ferdinand e Marianne, o diretor continua político em Pierrot, le fou, não esquece a guerra do Vietnã, o casal ouve no rádio notícias sobre a guerra.
E ainda continua apostando nas cores azul, branco e vermelho, nos remetendo a bandeira da França. Talvez o vermelho tão explorado seja o sangue derramado nas guerras.
Aqui Godard também faz critica a publicidade. Ferdinand diz ao ver um anúncio em uma revista: “Houve a civilização ateniense, houve o renascimento, e agora a civilização do traseiro”. Critica o capitalismo americano, pois não é gratuito que a marca Esso e o tigre símbolo aparecem na tela em algumas situações.
Antes de o nosso personagem principal fugir ao lado de Marianne ele vivia em uma sociedade fútil, essa que ele abandona. Pessoas que reúnem-se em festas e trocam comentários sobre carros novos, desodorante e até lingerie.
Godard foi sensível em Pierrot, le fou, o filme é poesia. Talvez porque nessa fase o diretor estava se separando da atriz Anna Karina. Talvez por ser sensível, esse filme seja o meu favorito do diretor.


Em “La chinoise” (1967) com Jean-Pierre Léaud, Godard trata da revolução de estudantes antes mesmo do acontecimento de maio de 68. Um grupo de estudantes reunidos em um apartamento em Paris discute o Maoísmo, marxismo-lenismo, e planejam uma revolução.
O diretor avisa ao espectador que se trata de uma ficção, quando escrito no início do filme em fundo preto, que se trata de um filme em construção. Confirmamos isso ao ver a câmera surgir na tela em uma das cenas e mais tarde claquetes e ainda o operador de som.
Trilha sonora? “La chinoise (Mao Mao)” de Claude Channes.
O personagem de Jean-Pierre Léaud representa o representado em uma cena durante o filme, ele diz: sim, sou um ator... Vou te mostrar algo, uma idéia do que é o teatro. Ele tem uma atadura enrolada em todo o rosto enquanto relata o protesto de estudantes chineses em Moscow, Stalin. A imprensa está presente no protesto e um estudante aparece com o rosto coberto por curativo, gritando: “Olha o que os revisionistas podres fizeram”.
Então quando o estudante começa a retirar os curativos do rosto, os repórteres esperam cortes e machucados horríveis e, no entanto tem a surpresa de ver o rosto do jovem sem ferimentos, “esse chinês é uma farsa”.
Sou fã do vermelho em seus filmes, aqui essa cor é mais que explorada pelo diretor, afinal estamos falando da revolução cultural chinesa de Mao Tsé-Tung, e são com os livros vermelhos que são construídas trincheiras dentro do apartamento, e ainda podemos ver durante o filme diversos deles na estante e nas mãos dos personagens.
Rádio que se transforma facilmente em metralhadora, assim como uma câmera filmadora na mão de uma das personagens que finge atirar no Léaud. Em determinado momento do filme o personagem do Jean-Pierre Léaud fala sobre alguns países e para representar cada um deles usa alguns óculos. O primeiro é um de armação branca com a bandeira dos EUA estampada na lente, e além desse ainda vemos outros, com as cores mais exploradas por Godard, azul, vermelho, amarelo.

Nunca entendi muito de política (continuo sem entender), talvez seja por isso que desde que me apaixonei pela Nouvelle Vague tombei de amores pelo cinema de François Truffaut, mais sensível e lírico que Jean- Luc Godard, político, revolucionário, crítico. Apesar de que o primeiro filme que assistir do movimento foi “Acossado” do Godard.
Seus filmes são uma aula de política e dialoga com outras artes, música, pintura e ainda a filosofia, história e linguagem, a literatura. Talvez a mistura de todos esses conteúdos confunda quem não tem a bagagem que seus filmes exigem.
Como escrevi no início do texto, nunca entendi muito sobre política por isso flutuo diante dos filmes do Godard. Me esforço durante os filmes para poder absorver algo, mas na maioria das vezes quando se trata de seus filmes coloridos sou roubada pelas cores usadas na direção de arte. As cores são sempre muito fortes, o amarelo, verde, vermelho e azul. Isso me agrada visualmente em seus filmes.
Monsieur, je ne comprends pas!
Me interesso pelo cinema do diretor apesar de não entender bem, por isso ultimamente tenho recorrido a textos que expliquem um pouco sua obra pra esclarecer as idéias. Por isso vos digo monsieur: Godard, eu não desisto de você!
Estive no banco no fim dessa semana, pronta para colocar a mão na bufunfa do mês e me livrar de algumas contas atrasadas e outras ainda a vencer.
Como imaginei fiquei esperando algum tempo, dia de pagamento, apesar do recesso no prédio o banco estaria cheio. Tudo bem, vai não estava tão cheio como inúmeras vezes já presenciei, mas dessa vez os idosos não paravam de chegar e todos começaram a ser atendidos pelos dois únicos caixas que estavam funcionando.
Quem manda Dona Lu, ter perdido as letrinhas da contra-senha, poderia ir para o caixa eletrônico. O jeito foi esperar. Na TV a Ana Maria Brega batucava com o Martinho da Vila, fiquei surpresa, pois nunca mais havia visto ele na mídia, achei até que poderia ter se aposentado. Ele parece mais gordinho. Olha o que fui notar? A falta do que fazer e o tédio naquela espera me levaram a ver o resto do programa Mais você.
Enquanto o programa acabava, ao meu lado um grupo de homens bobos falavam coisas do tipo “pois, temos de pegar são as meninas novinhas mesmo, ora, já estamos envelhecendo pra quê vamos sair com mulher velha”.
Meus Deus, mas que tortura a espera de minha vez para ser atendida quando minha senha era a 24 e o painel eletrônico marcava o número 6 e estava parado, pois os idosos não paravam de aparecer e precisavam ser atendidos.
Desisti. Passei a minha senha adiante, afinal como frequentadora daquele banco sabia bem que naquela manhã não seria atendida mais.
Mas, agora é que vem a melhor parte. “O sistema caiu... como o sistema caiu?... e o banco fechou...mas, como o banco fechou?”
Imaginei mesmo que apesar de não ser atendida no banco naquele dia, mais tarde ao sair do escritório pagaria as contas, afinal pra que serve o débito? Mas, o sistema caiu e atrasou meu dia, minhas contas, meus juros cresceram mais um pouco e culpa de quem? Do sistema.
Sim, porque se o sistema cai, o débito não passa, as contas não são pagas e isso só prova que nós somos escravos e estamos nas garras desse bendito invisível de nome Sistema.

Luzes, suava um bocado
Sofria, grunhia, cantava chorado
Deslocada, na cidade, no amor, no camarim
Assim será sempre foi assim
Janis Joplin e o seu visual
Voz entre os dentes blues visceral
Janis Joplin não é marginal
Só está acima do bem e do mal
Anjos do apocalipse, veteranos e ex-hippies
Vão romper mais uma vez toda a segurança
A dama é uma criança, mamando o microfone,
Está prá lá de alone, um beat não se cansa
Moça feia, gente fina
Calores de heroína, garganta puro aço
Moça linda, gente feia que deu essa heroína diluída no
seu braço
Vamos todos pro seu camarim
Não quero ver você tão triste assim
Nada de voltar sozinha para o hotel
Somos os seus escoteiros de bordel
Montaremos guarda à sua porta
Mesmo que na marra não importa
Dessa vez a gente passa a perna nessa tal de morte
eterna
Essa coisa triste e feia, que só quer fazer xixi na
sua veia
Janis, Janis, Janis, foi só um pesadelo,
Agora acorda e vem, arrepia o meu cabelo
Janis, Janis foi só um sonho mau
O rock de hoje em dia tá querendo o seu know how!