
Como disse um dia a Clarice Lispector: "Suponho que me entender não é uma questão de inteligência, e sim de sentir"...
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Agnés, não!
TERCEIRA PARTE
Ele voltou ao petit appartement, percebeu que estava sozinho. Rapidamente com uma passada de olhos e ouvidos atentos não detectou nenhum barulho que denunciasse a presença dela. Trazia consigo um embrulho branco, de dentro fez surgir um tubo com a tampa em formato de spray.
Logo foi ter no canto da porta onde ainda estavam as malditas formigas subindo e descendo, esbarrando-se, encontrando-se e a cada encontro pareciam se comunicar por um segundo. Possuía um olhar não muito amigável em cima daquelas pobres coitadas, estava pronto para dá um fim naquela festa.
Cobriu o nariz e a boca com uma camisa velha esquecida em uma cadeira e começou o massacre das formigas. Assim que espirrou o líquido a primeira vez as pequeninas congelaram entre a madeira da porta e a parede, mesmo aquelas que tentaram fugir não se salvaram da força do veneno e do assassino. Algumas logo foram caindo no chão, já cadáveres, outras ainda ficaram lá grudadas enfeitando o branco da parede.
Finalizou o trabalho, as visitantes indesejadas haviam morrido finalmente. Retirou a camisa que cobria o rosto revelando novamente a sua seriedade, e sentou-se para descansar, só então percebeu que o veneno vazava do tubo e pingava aos poucos em sua calça. Correu até a pia, apressado procurava algo que pudesse ajudar, colocou a mão na primeira coisa que viu, usou uma jarra de suco e despejou todo o líquido.
Sacudiu fora no lixo o tubo vazio e inútil, fez qualquer barulho com a boca revelando seu estresse e foi ter no banheiro.
A chegada dela não foi percebida por ele, entrou silenciosa, a mesma tristeza nos olhos e a garganta arranhando seca. Largou a bolsa na cadeira, pegou um copo e abriu a porta da geladeira. Se decepcionou, não havia água gelada, como também não havia muito que escolher para beliscar, a geladeira estava um deserto só.
Fechou a porta da gorda e vazia geladeira, então percebeu em cima da pia uma jarra de suco com o que lhe parecia ser água dentro. Seria o suficiente para fazer desaparecer sua sede.
Ele deixou o banheiro quando seus olhos a poucos metros da pia se depararam com a cena. Ela levava uma das mãos até a asa da jarra e em um movimento rápido pela sede que a dominava, serviu o líquido incolor em seu copo e em seguida subiu o braço até o mesmo copo quase alcançar a sua boca.
Agnés, não! Ele gritou.
Ela voltou-se para ele deixando escorregar da mão o copo de vidro que se partiu em pedaços no chão molhando seus sapatos pretos. Ele respirava assustado, em sua cabeça rodava um filme e a cena era Agnés morta no chão do apartamento após deixar descer pela garganta o veneno para formigas.
Agnés, a moça da blusa estampada e de sapatos pretos, não possuía os olhos tão tristes de antes. Agora eles cresciam um pouco no rosto, surpresos e mais satisfeitos, afinal o silêncio do outro havia sido rompido e por que ele havia gritado era o que menos lhe importava. Sorriu logo conquistando o sorriso dele.
As formigas partiram e com elas o silêncio atormentador que morava há dias no apartamento.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Agnés, não!
SEGUNDA PARTE
Sentada na varandinha, realmente muito estreita aquela varanda de apartamento minúsculo. Ela observava o nada enquanto ouvia pequenos barulhinhos de lá de dentro, ele decidira mudar as coisas de lugar, as poucas coisas que tinham de lugar. As únicas duas velhas poltronas, a TV que não era ligada há semanas, o tapete velho.
Seus olhos não o encontravam, pois estava de costas para a entrada da varanda, mas sabia que todo aquele barulho era para lhe arrancar a atenção. Eu sabia que ele e seus olhos pequenos observavam os meus cabelos dançar de quando em quando pelo vento que invadia a varanda, sabia que notava a minha blusa estampada de flores amarelas, conhecia os detalhes mínimos, o botão que havia caído e que eu ainda não havia pregado, talvez por preguiça ou esquecimento.
Ele a admirava do lado de dentro do apartamento, os cabelos que subiam e desciam por conta do vento que invadia a varanda de quando em quando, a blusa estampada que ela vestia. Despertou do encantamento misturado ao orgulho quando o telefone tocou, deixou a vassoura que há alguns minutos estava presa em suas mãos e atendeu o aparelho que vibrava louco no bolso.
Tudo bem, eu vou descer, só um minuto. Tchau!
Os ouvidos da outra não deixaram de escutar as palavras breves dele ao telefone. Curiosa não se conteve e voltou-se para a entrada da varanda, o viu sair e a porta bater.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Agnés, não!
PRIMEIRA PARTE
Odiava aquelas formigas subindo e descendo, esbarrando-se entre si no canto da porta. Não sabia como eliminar aquelas visitantes inconvenientes que voltaram desde o fim do inverno, observava de longe enquanto dividia o seu pensamento entre uma solução para aquelas benditas e outra coisa que o atormentava. Serviu-se de café e acendeu um cigarro, era o último da carteira.
Ouviu a porta abrir e fechar, estava de costas, de modo que não a viu entrar, mas sentia a sua presença, o perfume invadiu todo o pequeno apartamento. Trocaram um olhar frio, silencioso, com palavras engolidas. Ele sentou em uma das cadeiras da mesa estreita e ela permaneceu ali parada ainda alguns segundos, até que cansou de olhar para o mudo e percebeu as formigas, uma verdadeira população de formigas na porta. Chegou até a pia pegou o detergente e atacou as formigas com aquele líquido verde, já havia feito aquilo antes e sabia que afastariam elas por alguns minutos, mas logo estariam de volta.
Largou o detergente na mesa e ocupou também uma das cadeiras, estavam um de frente para o outro. Os olhos deles voltaram a se encontrar, mas ele não conseguiu olhar por muito tempo, enquanto ela mantia firme e fixo, quase sem piscar os olhos em cima do outro. Lábios sem sorrisos, fumaça de um cigarro quase no fim rondando ali, e o café frio na xícara. Ela queria o ouvir falar, ele queria a ouvir falar. Nenhum dos dois falaria.
As gargantas pareciam entupidas de palavras que precisavam ser ditas, ofensas precisavam ser retiradas, mas nenhum dos dois falaria.
O relógio na parede deu uma volta e meia hora havia passado, ele levantou, arrastou os pés descalços até a varanda e ficou ali em silêncio, de costas. Ouviu a porta bater novamente, ela partiu.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Euquatro olhos
Eu, quatro olhos. Confesso que em algum momento de minha infância (escrevo isso como se já passasse dos 40 anos, nossa) eu me peguei desejando usar óculos, tudo porque colegas de escola usavam e depois meus primos. Enfim, bobagenzinha de criança.
Há alguns meses voltava da universidade e esperava ansiosa pelo ônibus que só para pirraçar com minha enorme vontade de jantar, não chegava de jeito nenhum. De repente, quando esqueci por um momento a minha espera, surgiu grande e velha a jaula ambulante.
Sabia que era uma das várias carroças em forma de ônibus, mas não tive a certeza de que era a minha jaula. O letreiro eletrônico embaçava e só pude ficar certa de que finalmente partiria quando grande e repleta de gente louca para sair, ela estacionou-se diante de mim.
Estou com problemas para enxergar de longe. Pensei. Desde aquele dia tenho um leve medinho de pegar ônibus errado.
Com o passar dos dias sentir que minha cabeça martelava todo o fim de tarde e as imagens que surgiam diante de meus olhos pareciam telas impressionistas, tudo embaçado.
Eu, quatro olhos. Devo me conformar com essa idéia, difícil, difícil. Eu, quatro olhos e de aparelho, Mon Dieu!
Me rendo, pois, antes usar óculos de vez em quando a adiar e mais tarde de tão prejudicados meus grandes olhos de mangá não poder ler nenhuma linha de um livro.
Providenciar consulta ao oftalmologista! Anotado.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
India Song

Chanson,Toi qui ne veux rien dire
Toi qui me parles d'elle et toi qui me dis tout,
Ô toi, Que nous dansions ensemble
Toi qui me parlais d'elle, D'elle qui te chantait
Toi qui me parlais d'elle ,de son nom oublié
De son corps, de mon corps ,de cet amour là De cet amour mort
Chanson,de ma terre lointaine
Toi qui parleras d'elle, maintenant disparue
Toi qui me parles d'elle, de son corps effacé ,de ses nuits, de nos nuits
De ce désir là, de ce désir mort
Chanson,Toi qui ne veux rien dire
Toi qui me parles d'elle et toi qui me dit tout
Et toi qui me dit tout...
(Letra de Marguerite Duras)
Postagem N°105- Nota sobre a violência contra a mulher
Essa manhã, li em um dos jornais locais sobre o assassinato de uma garota de apenas 13 anos. O motivo, o namorado com ciúmes foi contra a participação da menina em um concurso de beleza na escola. Resultado: a menina assassinada a facadas pelo próprio namorado.
Não preciso falar que achei um absurdo esse fato. O machismo, o sentimento de posse desse rapaz sobre essa menina. Alguns homens ainda insistem na velha idéia de que a mulher deve servir a ele e viver para ele, andar conforme ditam as suas palavras.
Em Aracaju, no Departamento de grupos vulneráveis na maioria das queixas realizadas pela mulher os agressores são os seus próprios companheiros, e algumas dessas mulheres ao chegar à delegacia não desejam a prisão do marido e sim que a delegada converse com o cidadão para que seu relacionamento seja salvo, melhore. Essas mulheres são dependentes financeiramente e emocionalmente desses homens, isso atrapalha, pois elas continuam suportando aquelas agressões, aquela vidinha de tapas e humilhações, muitas vezes por medo da solidão e, além disso, por depender do outro para vestir e comer.
É triste que ainda existam mulheres que pensem assim e continue levando uma vida tão sofrida por uma ilusão, pois que amor é esse que espanca, que mata? É triste que ainda existam mulheres que deixem de pensar em seu futuro para viver a vida do outro. É inadmissível o machismo e atitudes como essas, um modo tão antigo de se pensar.