quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Agnés, não!

SEGUNDA PARTE

Sentada na varandinha, realmente muito estreita aquela varanda de apartamento minúsculo. Ela observava o nada enquanto ouvia pequenos barulhinhos de lá de dentro, ele decidira mudar as coisas de lugar, as poucas coisas que tinham de lugar. As únicas duas velhas poltronas, a TV que não era ligada há semanas, o tapete velho.

Seus olhos não o encontravam, pois estava de costas para a entrada da varanda, mas sabia que todo aquele barulho era para lhe arrancar a atenção. Eu sabia que ele e seus olhos pequenos observavam os meus cabelos dançar de quando em quando pelo vento que invadia a varanda, sabia que notava a minha blusa estampada de flores amarelas, conhecia os detalhes mínimos, o botão que havia caído e que eu ainda não havia pregado, talvez por preguiça ou esquecimento.

Ele a admirava do lado de dentro do apartamento, os cabelos que subiam e desciam por conta do vento que invadia a varanda de quando em quando, a blusa estampada que ela vestia. Despertou do encantamento misturado ao orgulho quando o telefone tocou, deixou a vassoura que há alguns minutos estava presa em suas mãos e atendeu o aparelho que vibrava louco no bolso.

Tudo bem, eu vou descer, só um minuto. Tchau!

Os ouvidos da outra não deixaram de escutar as palavras breves dele ao telefone. Curiosa não se conteve e voltou-se para a entrada da varanda, o viu sair e a porta bater.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Agnés, não!

PRIMEIRA PARTE

Odiava aquelas formigas subindo e descendo, esbarrando-se entre si no canto da porta. Não sabia como eliminar aquelas visitantes inconvenientes que voltaram desde o fim do inverno, observava de longe enquanto dividia o seu pensamento entre uma solução para aquelas benditas e outra coisa que o atormentava. Serviu-se de café e acendeu um cigarro, era o último da carteira.

Ouviu a porta abrir e fechar, estava de costas, de modo que não a viu entrar, mas sentia a sua presença, o perfume invadiu todo o pequeno apartamento. Trocaram um olhar frio, silencioso, com palavras engolidas. Ele sentou em uma das cadeiras da mesa estreita e ela permaneceu ali parada ainda alguns segundos, até que cansou de olhar para o mudo e percebeu as formigas, uma verdadeira população de formigas na porta. Chegou até a pia pegou o detergente e atacou as formigas com aquele líquido verde, já havia feito aquilo antes e sabia que afastariam elas por alguns minutos, mas logo estariam de volta.

Largou o detergente na mesa e ocupou também uma das cadeiras, estavam um de frente para o outro. Os olhos deles voltaram a se encontrar, mas ele não conseguiu olhar por muito tempo, enquanto ela mantia firme e fixo, quase sem piscar os olhos em cima do outro. Lábios sem sorrisos, fumaça de um cigarro quase no fim rondando ali, e o café frio na xícara. Ela queria o ouvir falar, ele queria a ouvir falar. Nenhum dos dois falaria.

As gargantas pareciam entupidas de palavras que precisavam ser ditas, ofensas precisavam ser retiradas, mas nenhum dos dois falaria.

O relógio na parede deu uma volta e meia hora havia passado, ele levantou, arrastou os pés descalços até a varanda e ficou ali em silêncio, de costas. Ouviu a porta bater novamente, ela partiu.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Euquatro olhos

Eu, quatro olhos. Confesso que em algum momento de minha infância (escrevo isso como se já passasse dos 40 anos, nossa) eu me peguei desejando usar óculos, tudo porque colegas de escola usavam e depois meus primos. Enfim, bobagenzinha de criança.

Há alguns meses voltava da universidade e esperava ansiosa pelo ônibus que só para pirraçar com minha enorme vontade de jantar, não chegava de jeito nenhum. De repente, quando esqueci por um momento a minha espera, surgiu grande e velha a jaula ambulante.

Sabia que era uma das várias carroças em forma de ônibus, mas não tive a certeza de que era a minha jaula. O letreiro eletrônico embaçava e só pude ficar certa de que finalmente partiria quando grande e repleta de gente louca para sair, ela estacionou-se diante de mim.

Estou com problemas para enxergar de longe. Pensei. Desde aquele dia tenho um leve medinho de pegar ônibus errado.

Com o passar dos dias sentir que minha cabeça martelava todo o fim de tarde e as imagens que surgiam diante de meus olhos pareciam telas impressionistas, tudo embaçado.

Eu, quatro olhos. Devo me conformar com essa idéia, difícil, difícil. Eu, quatro olhos e de aparelho, Mon Dieu!

Me rendo, pois, antes usar óculos de vez em quando a adiar e mais tarde de tão prejudicados meus grandes olhos de mangá não poder ler nenhuma linha de um livro.

Providenciar consulta ao oftalmologista! Anotado.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

India Song



Chanson,Toi qui ne veux rien dire

Toi qui me parles d'elle et toi qui me dis tout,

Ô toi, Que nous dansions ensemble

Toi qui me parlais d'elle, D'elle qui te chantait

Toi qui me parlais d'elle ,de son nom oublié

De son corps, de mon corps ,de cet amour là De cet amour mort

Chanson,de ma terre lointaine

Toi qui parleras d'elle, maintenant disparue

Toi qui me parles d'elle, de son corps effacé ,de ses nuits, de nos nuits

De ce désir là, de ce désir mort

Chanson,Toi qui ne veux rien dire

Toi qui me parles d'elle et toi qui me dit tout

Et toi qui me dit tout...


(Letra de Marguerite Duras)

Postagem N°105- Nota sobre a violência contra a mulher

Essa manhã, li em um dos jornais locais sobre o assassinato de uma garota de apenas 13 anos. O motivo, o namorado com ciúmes foi contra a participação da menina em um concurso de beleza na escola. Resultado: a menina assassinada a facadas pelo próprio namorado.

Não preciso falar que achei um absurdo esse fato. O machismo, o sentimento de posse desse rapaz sobre essa menina. Alguns homens ainda insistem na velha idéia de que a mulher deve servir a ele e viver para ele, andar conforme ditam as suas palavras.

Em Aracaju, no Departamento de grupos vulneráveis na maioria das queixas realizadas pela mulher os agressores são os seus próprios companheiros, e algumas dessas mulheres ao chegar à delegacia não desejam a prisão do marido e sim que a delegada converse com o cidadão para que seu relacionamento seja salvo, melhore. Essas mulheres são dependentes financeiramente e emocionalmente desses homens, isso atrapalha, pois elas continuam suportando aquelas agressões, aquela vidinha de tapas e humilhações, muitas vezes por medo da solidão e, além disso, por depender do outro para vestir e comer.

É triste que ainda existam mulheres que pensem assim e continue levando uma vida tão sofrida por uma ilusão, pois que amor é esse que espanca, que mata? É triste que ainda existam mulheres que deixem de pensar em seu futuro para viver a vida do outro. É inadmissível o machismo e atitudes como essas, um modo tão antigo de se pensar.

sábado, 27 de novembro de 2010

Livre


Me sinto velha, às vezes, principalmente quando me imagino distante do mundo em que vivo, diferente de tudo, de todos. Então os meus olhos parecem pesados na face envelhecida, cansada, como se já tivesse vivido vinte anos a mais do que tenho. Mas, ultimamente essa sensação de velhice me esqueceu e não tem me visitado. Agradeço, fique onde está!

Transformou-se em pó aquela vontade de entrar em um trem e desaparecer por um tempo, viajar em trilhos desconhecidos e distantes. Nasce a vontade de encontrar todos ao mesmo tempo e com todos dividir tudo, conhecer un peu de choses e rir juntos.

Me lembro da vontade que me dava de me atirar no mar de vez em quando, não com intenção suicida, mas procurando um pouco de liberdade, sei lá, mesmo que por pouco tempo. Longe do barulho de tudo, todos, das cobranças, das perguntas quando na verdade só queria um pouco de silêncio.

Me sinto distante dessa vontade, sim, ainda tenho vontade de me atirar no mar, mas só isso. Sinto que as coisas mudaram de uns dias para cá, e me deixa contente.

Ando contente. Apesar das palavras de ofensas e toda a água de mágoa que me cercou há dias atrás, me permito esquecer, pois sei que as coisas não voltam a ser como eram, quando uma casa cai, ela nunca é reconstruída da mesma maneira, mas não significa que não ficará de pé novamente. Por isso ainda ecoa em minha cabeça as palavras sabias que ouvir de alguém dias atrás: “Não vale à pena”. O tempo passa e é melhor seguir.

Os domingos. Nossa os domingos, aqueles dias tão tristes, eles mudaram um pouco, já não são desertos e sem sorrisos como antes, um novo círculo me leva, ás vezes, e os encontros simples de boas risadas e conversas, um pouco de tinto. Na verdade é preciso confessar que invadir certo grupo de amigos e como fui bem acolhida, desde já agradeço a ótima recepção meus queridos!

Acho que finalmente cresci. Começo a entender que pessoas são apenas pessoas e me descubro igual a elas de duas maneiras: As pessoas têm lados bons e ruins. Preto e branco. Não somos de todo mal e nem somos de todo bem.

Entendo melhor que nem todos podem pensar como eu, que existem os que desejam viver a vida dos outros e aqueles que desejam viver suas vidas. Eu estou nesse último grupo e preciso entender o primeiro para continuar próxima das pessoas que gosto.

Me sinto livre finalmente, livre de mim mesma, de um tempo longo que passei apenas eu e eu e momentos estranhos na minhas costas. Me sinto livre e terei essa certeza a cada dia que o sol vier e partir novamente.

Li em algum lugar certo dia, recentemente: “Tenho dezenove anos, é tempo de fazer alguma coisa. Talvez eu tenha medo demais, e isso chama-se covardia”.

Viverei mais, farei mais parte do mundo em que todos vivem.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Momento Espanca: "Eu"

Eu ...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

(Florbela Espanca)