sexta-feira, 7 de junho de 2013

A dor causada pelo câncer de mama

(Foto: David Jay)



Semana passada me deparei com uma série de fotografias de David Jay, um fotografo de moda que registra a beleza de modelos. O curioso é que as fotos não eram direcionados ao mercado da moda, na verdade as fotos que vi foi de me emocionar, o fotografo registrou a luta de mulheres portadoras do câncer de mama contra a doença. 

Vi todas aquelas mulheres realmente bonitas, mostrando as mamas marcadas pela mastectomia resultada do tratamento da doença. Entre todas as fotos fui tomada pela emoção ao ver uma mulher ruiva chorando diante da câmera, apenas ela chorou, e apesar de não sabermos o que ela sentia (pois só sabe a dor de passar por tal situação quem nela está), em meus olhos veio lágrimas.  

Imagino que naquele momento, ali diante da câmera posando com sua mama a mostra, na cabeça dessa moça ruiva passava todos os momentos desde que descobrira o câncer, o tratamento, o medo, as preocupações, a mutilação. 

Bombardeadas todos os dias pela ditadura da beleza que estampa as capas de revistas, novelas, programas de reality shows, com corpos perfeitos, padrões que “devemos seguir” para sermos consideradas lindas e desejadas. Hoje que os seios perfeitos aparecem como símbolo de sensualidade, como essas mulheres se sentem ao perder a sua mama?

A mulher ao ser diagnosticada, além de lidar com o tratamento, as questões econômicas para sustentá-lo, e as consequências deste que leva, em muitos dos casos, a mastectomia, ela enfrenta uma crise de identidade feminina, pois existe também a questão cultural em que a mama aparece como símbolo da feminilidade, sensualidade e maternidade. 
 
No imaginário social, a mama está associada a atos de prazer, a amamentação, a sedução e a caricia. A amamentação é o contato estabelecido pela mãe com o seu filho, naquele ato ela alimenta a criança e também o acolhe. Então, ao passar pelo processo de mastectomia, a mulher passa pelos piores sentimentos que pode sentir: a rejeição, inferioridade e baixa autoestima. O contato com seu filho no ato da amamentação é cortado, diante da ditadura da beleza em que vivemos perde a autoestima, e o medo de ser rejeitada pelo seu parceiro a atormenta. 

Pode-se considerar então que “a falta da mama e a falta do seio representam, num primeiro momento, a morte simbólica da mulher”.



Referência: SILVA, Lucia Cecília da (2008). Câncer de Mama e sofrimento psicológico: Aspectos relacionados ao feminino.


Fotos de David Jay: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/05/ensaio-de-mulheres-com-cancer-de-mama.html

quinta-feira, 8 de março de 2012

Máscaras

Os olhos dela estavam úmidos e perdidos desde a noite anterior, quando voltara da rua.  Fred não entendia o que estava acontecendo, o silêncio de Inês o preocupava. Perguntou durante o jantar, entre garfadas e copos d’água o que se passava, mas Inês não respondeu. Depois, antes de descansarem a cabeça no travesseiro, Fred repetiu a pergunta e Inês apenas tocou os seus lábios no rosto dele e deitou-se.

Na manhã seguinte, ela ainda possuía aquele olhar triste, sentada no sofá com as pernas dobradas em pose de meditação, seus ombros caídos acompanhavam a tristeza de seu rosto. Estava mergulhada em pensamentos secretos, esse objeto de desejo de Fred que a observava de pé na porta. Notou as unhas curtas da outra, seu movimento quando lentamente sua cabeça baixou e em poucos minutos levantou.

 Fred aproximou-se, sentou na outra ponta do sofá assistindo a distância de Inês, que parecia ter entrado em outro mundo e estava cada vez mais se perdendo. Não conseguia suportar aquele comportamento dela sem fazer nada, pois antes de pegar no sono, na noite anterior e ao acordar, pensou diversas vezes em uma resposta para tudo aquilo e nada lhe veio.

Aproximou-se mais um pouco da outra, sua mão pousou em uma das pernas dela que logo respondeu com aquele olhar úmido. Ele disse tocando seu rosto: - O que tem? Não pode ficar assim em silêncio, me torturando, nem sei se sou responsável por isso.

Inês respirou, desviou seus olhos dele, balançou a cabeça negando a dúvida de Fred.

- Então, diz Inês, porque estou ficando preocupado demais com você. Fred tocou as mãos dela, queria que sentisse segurança e falasse sobre sua tristeza. A abraçou e sentiu o seu corpo quente e seus cabelos estavam perfumados, depois voltou a olhar para ela que respirou e disse:

- Estou magoada, estou decepcionada, me sinto enganada, sabe? Eu poderia quebrar tudo, eu poderia xingar todos, eu poderia gritar, mas não consegui.

- Como assim? Lhe fizeram mal? Brigou com alguém?

- Briguei com o mundo Fred, eu não entendo porque que todos têm sempre que ser cruéis, fofoqueiros, maldosos, egoístas? Me diz? Por que todo mundo está sempre procurando um espaço para derrubar o outro?

- O mundo é assim Inês, você devia parar de acreditar que todo mundo é uma boa pessoa, elas não são, até nós mesmos podemos não ser. Mas me diz o que aconteceu que você voltou para casa com essa revolta?

- Nada diretamente comigo, eu devia ser menos observadora, nesse momento eu queria ser um pouco cega para não ver alguns tentando destruir outros.

- Entenda uma coisa Inês, todo mundo fala de todo mundo, ninguém é perfeito e as pessoas sempre procuram perfeição e todos querem ser perfeitos, mas isso não existe, só em nossa imaginação. Quando a gente se apaixona, por exemplo, a gente não conhece o outro, a gente conhece o que a gente constrói do outro e mais tarde quando os verdadeiros defeitos dele aparecem e temos de lhe dá com eles, ai sim descobrimos se o amamos mesmo. Estou tentando dizer a você que não viva tanto mergulhada em outro mundo, não acredite tanto nesse mundo, você tem de saber a verdade sobre o mundo em que vivemos e precisa se acostumar com ele. E daí se os outros estão se comendo vivos, participando de um teatro todos os dias, rindo um com os outros em uma sala e dando tapinha nas costas e depois ao atravessarem a porta despejam veneno uns nos outros? E daí? Você tem que colocar sua máscara e participar do teatro ou você não sobreviverá. Entende?

Inês ouvia as palavras de Fred sem tirar os olhos dos castanhos dele, ela acreditava no que ele dizia, estava mais calma quanto a sua revolta, mas não aceitava a crueldade do mundo. Segurou as mãos dele e lhe beijou a testa, Fred sentiu que estava lhe devolvendo a paz e desejava ver Inês com um sorriso no rosto novamente.

- Tudo bem, vou tentar.








Incompreendida

Amava muitas coisas e odiava muitas outras, pensava que se listasse tudo não caberia na página em branco em sua mente. Achava lindo viver, mas compreendia que era muito difícil. Todos os dias era momento de se transformar, tirar a casca velha que lhe cobria e renascer, excluir defeitos, desconstruir-se e reconstruir-se. Estava aprendendo a viver.

A fase de tentar compreender as coisas havia passado e agora se perdia na tentativa diária de saber viver. Só então entendia a angústia de ser um personagem de Clarice Lispector.

Viver não é fácil meu bem, mas vai e tenta. Desafiava a si mesma todos os dias.

Sentia que os outros não a compreendia e aqueles que demonstravam a compreender, certamente a interpretavam errado e isso lhe doía os pensamentos. Não pensar, às vezes, era bem mais fácil (mas era difícil se privar de pensar, pensar em não pensar já está pensando), o bombardeamento de pensamentos lhe colocava em situações complicadas, em conflito consigo mesma e era a pior das situações.

Carregava um mundo dentro de si onde tudo era mais intenso, sonhos, desejos, dores, tristezas. Se perdia dentro dela e voltava cheia de dúvidas e ansiedade. Sorridente, meio perdida, pobre de concentração.

Pensava como certos sentimentos eram tão particulares, quando do início de uma paixão, por exemplo, sente-se indescritível, algo como uma alegria que cresce aos poucos. E ainda que outros conheçam aquele sentir, cada sentir, em cada corpo e coração é inexplicavelmente particular.

E tudo isso, do que diz respeito a sentimento não está para entender e sim para sentir e era o que fazia. Quando se pegasse tentando se perder ao querer explicar para si mesma uma palavra de ternura trocada, um toque na mão e um sorriso nos lábios, não pensaria, mas sentiria com corpo e alma.

Não queria nada do passado, desejava o mundo do presente, mas entendia que não podia abraçar tudo de uma só vez. Do futuro não sabia e preferia não pensar, mas era inevitável.

Acreditava mais no bem que no mal, o que a tornava ingênua. Para ela a política separava as pessoas, ela tão pacífica, tão quieta, detestava que a colorissem, ela que só tinha um lado, o dela mesma. Ela que acreditava e defendia os direitos da mulher se irritava com a ausência de união entre elas, com a inveja e outros sentimentos ruins que muitas alimentavam umas pelas outras.

E ser mulher era outra aprendizagem. O que era para ela ser mulher?

Era jovem ainda, mas pensava nas palavras de seus pais sobre o futuro. “Quando você for mãe irá entender”. Essa frase se confirmará mais tarde, ela sabia e se preparava para ter seus pensamentos amadurecidos no futuro, mas por enquanto ainda era cedo.

Boba, sentimental, seus olhos se emocionaram diante de algumas crianças em festa em apresentação folclórica, e parava encantada enquanto para os outros era algo comum. Bonito, mas comum.

Em dias de espírito doente sentia o mundo feio e contra ele ficava, sentia uma dor que vinha de dentro e que lhe deixava sem muitas palavras e lhe roubava a calma. Sentia vontade de fugir e esconder-se até acalmar tudo e entendia que era dentro de si que precisava resolver as coisas, lá fora tudo estava como sempre, as pessoas usando suas máscaras e lutando uns contra os outros, alguns até vivendo felizes, outros apenas fingindo.

E para sobreviver a dias como esses era preciso colocar a armadura, pois que fazia parte do mundo e precisava participar dele, querendo ou não, havia obrigações a cumprir. Quando o dia acabasse, estaria segura em casa e tudo seria colorido novamente.






sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Eles





- Sou teu homem agora e a amo. Ele disse a ela, sentindo como se trocasse de lugar. Lembrava que sempre ouvira outras mulheres dizer assim a um homem: Eu sou tua. Ou um homem dizer: Minha mulher. E de imediato ela confirmar: Sim sou tua mulher. Mas, nesse caso, disse a ela sendo abraçado pelos braços femininos, que era dela.

- Sim, é meu e te amarei sempre. E eu sou tua, estou me dando pra você. Beijava os cabelos do homem abraçado ao seu corpo.

- E não tem medo?

- Sim. Tenho medo de voltar a ser a de antes, tenho medo de não poder viver tudo isso. Eu quero sentir. Mas isso depende de nós, principalmente de mim. Não quero dizer que estou no comando ou que você faz o que quero, não é isso que quero dizer. Entre nós desejo igualdade, respeito e amor. Digo isso, pois sou vilã de mim mesma e tenho medo de me atrapalhar e não me permitir, mas como nova mulher isso não vai acontecer. Irei me proteger e lhe peço paciência, estou em momento de transformação todos os dias, em aprendizagem. Eu estou aprendendo a ser mulher. Seus olhos diziam para ele.

E assim esperava que ele tomasse conta dela, pois ela cuidaria dele, porém precisava mais de cuidados que ele. Desejava que ele a protegesse do mal invisível que era a tristeza e também dela mesma, quando viesse a ser sua vilã. Ela segurou sua mão e ali estava o seu porto e um marinheiro que não partiria.

Regaria todos os dias aquele sentir para que criasse raízes e desenvolvesse, crescesse dentro deles se estendendo para fora.

Tudo aquilo era muito mais particular para ela do que ele imaginava. Havia passado por um longo caminho até chegar ali, e ainda que quisesse que ele conhecesse aquela história, preferia não contar. Ele talvez não entendesse. Talvez mais tarde em um momento maior ele compreendesse e encontrasse beleza em tudo o que guardava.

Ela sorriu para ele e tudo era real.




terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sorriso largo no rosto



Uma manhã que nasce de sol lindo no céu azul, apesar de escaldante calor. E lá vou eu pisando no chão molhado da chuva da noite passada. Fone de ouvido e a trilha sonora que eu escolhi pra mim, para o episódio do meu dia.



Sentindo nada, nem dor, nem sono, nem falta, nada, apenas respiração que vem de dentro subindo, subindo e me traz um sorriso, sei lá porque, mas é bom e é assim, simples, sem motivo.



Otimismo demais? Sei lá. Talvez alguns ainda me julguem falsa-feliz tentando disfarçar tristeza. Mas, decidi ser feliz todos os próximos dias da minha vida, pra quê estressar tão cedo se ainda temos as próximas horas do dia para tapar os buracos com calma, resolver as pendências, visitar a família, pegar ônibus cheio, etc.? Por que reclamar tanto se sou tão jovem e com tão boa saúde? Não há por que. Por que não segurar a onda e respirar quando o mundo ameaçar cair e tentar resolver tudo numa boa? Pois é, foi isso que escolhi pra mim.



Sorriso largo no rosto, na alma, no fígado, no rim, como eu puder sorrir irei sorrir, pelo menos tentar, porque tentar não paga, mas ajuda muito. (risos) E se o céu é azul e lindo eu serei também, linda e feliz, porque passado e dor tá fora de moda baby e eu quero evitar rugas e não quero morrer estressada do coração, não mesmo. Hahahaha.


sábado, 16 de julho de 2011

Curta-metragem: Sorriso largo no Rosto ;)


Uma garota sente uma alegria imensa dentro si. Paz de espírito? Livre de si mesma? Livre dos seus medos?

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma paixão, uma arma e la putana

Parte IV


Não tinha notícias de Henrique, desde a noite em que o expulsou de sua porta. E não fazia questão de saber, estava cheia das confusões dele, e ter sacado uma arma em sua frente havia sido a gota d’água.

Estava concluindo o ensino médio, era um ano decisivo para a garota. Naquela tarde assistia a uma aula de geografia e viajava em coisas nada haver com o mapa-múndi, pensava em como diria a sua mãe que pretendia ir embora da cidade no fim do ano, e já imaginava a despedida de seus amigos.

O sinal tocou chamando os alunos para um intervalo, cortando a empolgação da professora de geografia. Os alunos deixaram os livros e saíram rapidamente da sala de aula, Maria não fez diferente, foi ter na lanchonete com Lúcia. E foi lá que recebeu a ligação desesperada de dona Lourdes, mãe de Henrique. Chorava ao telefone descrevendo a destruição que o filho fez em casa, e a sua partida sem destino.

-          Pode deixar dona Lourdes, que eu sei bem onde esse vagabundo deve estar... Não chora, pois o Henrique não merece metade das lágrimas da senhora. Até mais dona Lourdes, fica bem.

***
Manhã de sábado, o sol iluminava a pequena cidade alagoana que estava movimentada por conta da feira livre. Homens gritando, anunciando os seus produtos, a carne que sangrava na mesa imunda, frutas frescas, donas de casas enfeitadas com bobis na cabeça e puxando os carrinhos de metal onde guardavam as compras para o almoço.

No meio da feria estava Maria. Carregava consigo uma expressão nada amigável, olhos alertas. Procurava uma casa, conferia de quando em quando um endereço no papelzinho em sua mão. Finalmente, a poucos metros encontrou, e foi ter na casa verde. Diminuiu os passos e parou diante da casa, conferindo ainda uma vez o endereço, era ali, não havia dúvidas. O portão estava aberto, abriu cuidadosamente, mas um pequeno ruído foi inevitável, não se deu o trabalho de fechar e aproveitou que a porta também estava entreaberta e adentrou na casa.

Henrique, sentado no sofá assistia TV, as pernas descansavam esticadas em um banco. Em uma das mãos uma cerveja e no rosto uma expressão assustadora de surpresa ao ver Maria diante dele. Saiu de sua postura largada, enquanto Maria desligava a TV e do corredor surgia a La putana com quem ele estava morando.

-          O que está fazendo aqui minha amiga?
-          Vai, pega tuas coisas e vamos embora Henrique...
-          Quem é você vagaba? La putana, mexia a cabeça e o corpo enquanto indagava com as mãos na cintura. Possuía uma valentia impressionante, mas não maior que a ousadia de Maria.
-          Diz para essa aí não falar comigo.
-          Mas, você está na casa dela...
-          Olha aqui Henrique, eu não tenho tempo pra conversinhas...
-          Você pensa que manda em mim ô garota...
-          Mas, eu mando mesmo. Pega logo suas coisas e vamos embora. Tua mãe me telefonou Henrique, como é que você apronta uma coisa dessas pra ela, derrubou tudo em casa e depois vem morar nesse muquifo?
-          Mas, você é muito ousada...

La putana armou-se de violência e voou em cima de Maria, que rápida colocou os braços para proteger seu rosto. Henrique agarrou a La putana arrastando ela para um canto da sala, Maria aproximou-se deles com olhos grandes.

-          Chega, eu não vim aqui para trocar tapas com uma mulher como você por causa de um tipo como Henrique. E você Henrique, pegue suas coisas e vamos embora, estou esperando lá fora.
Maria ajeitou a camisa amassada pela confusão, os dedos penetraram nos fios dos cabelos, colocando-os para trás. Deixou a casa.

Henrique soltou a La putana, pensava com as mãos na cabeça dando voltas pela sala. Ela ainda tinha raiva, suas mãos tremiam e sua boca não parava de soltar palavras sujas. Henrique entrou pelo corredor em direção ao quarto e voltou com o tênis na mão e a mochila nas costas, deixando a outra sem acreditar no que via. Resmungou: - Você é um pau-mandado mesmo, não acredito que vai com essa mimada saf...

-          Hey, chega. Nada de palavrões com ela. Eu vou embora.

Foi ter com Maria na porta da casa, ela olhava para o relógio no pulso quando viu os pés dele descalços ao lado dos seus. 

-          Antes que confunda as coisas, saiba que vim aqui por causa da sua mãe, e tão cedo não quero ver você no meu caminho e tão cedo não quero ouvir falar se você andou aprontando.

Caminharam juntos e o silêncio os acompanhou.







segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sem título, porque me falta imaginação...



Como era ansiosa, seus dedos tremiam em sincronia com um não sei o quê que sentia no peito. Na cabeça flutuavam todas as idéias, planos, desejos que guardava e precisava trazer para o real, mas o tempo era o muro mais alto, o concreto mais duro e impiedoso, não chegava a ser um inimigo, mas uma pedra no caminho.

Acreditava que no dia seguinte acordaria mais calma, as idéias seriam organizadas como em um calendário e tudo ficaria sobre o seu controle, assim fácil. Iludida. A manhã nasceu e ao abrir os olhos sentiu todo aquele incomodo do dia anterior. Respirou e deixou a cama com toda a coragem que roubava de dentro do corpo e achou esquisito o escuro, perguntava-se onde estava a luz do sol que sempre entrava pela fresta da janela incomodando os seus olhos.

Nos lábios um sorriso, resposta do céu cinza lá fora e da chuva que caia fraquinha trazendo um vento fresco. – Talvez uma música... e um café também. Sussurrou para si mesma. Morava sozinha e era a sua maior conquista aquele apartamento pequeno com o seu jeito, as suas cores, o seu cheiro.

Descalçou os pés para a pele sentir o frio que forrava o piso, caminhou até a cozinha, preparou e tomou café da manhã rindo sabe-se lá do quê. E a ansiedade descansava e voltava lhe roubando a calma e os pensamentos. Neles desenhavam-se papéis em branco, livros, uma máquina fotográfica, um rapaz, um pen-driver, roupas que deveria escolher, tênis ou sapatilha? Sandália de dedo, talvez? Outro rapaz. Pausa para um gole de café, uma mordida digna no sanduíche de queijo derretido. Novamente os desenhos nos pensamentos, a passagem da viajem, o dinheiro que deveria guardar, uma agenda escrita quase completa.

Hora de voltar à realidade e fazer as coisas que eram preciso fazer. Deixou a cozinha e foi de cabeça para a ducha morna, tinha exatamente 30 minutos para deixar a sua caverna e ir para o trabalho.

Dirigia bem. Dirigia? Pelo menos era atenta nas ruas, o carro emprestado dos pais há quase dois anos, sua sorte que eram seus pais os donos, pois que abuso. Mas, eles não se importavam, não muito. Logo... logo...logo... ela compraria o seu e tudo ficaria bem. Essa parte da história não fazia parte do seu troféu de independência. 

Dona de pouca idade, sentia-se criança quando pensava em confiança. Diante de diversas situações dividia-se em duas naqueles dias, tantas histórias e tantas versões que sabia-se lá em quê ou quem dá mais crédito. Mas de uma coisa tinha certeza: Estaria do seu lado, que era o mais confiável. Bastava discuti com sigo mesma todos os dias, entre a quieta e corajosa, a santa e a ousada, a individualista e a amável.


Era meio esquisita também, não se sabe explicar. Era um dia de sol amarelo brilhante no céu, deixara a prisão de deveres e afazeres que era seu trabalho, e sem explicação alguma, sem ter nem porque o seu espírito flutuava, leve e alegre, um sorriso tatuado de canto a canto do rosto, impossível de conter. Tudo nas ruas era mais lindo, o céu mil vezes mais azul, era paciência pura, os semáforos poderiam fechar que os seus pés não reclamavam por está com pressa. Esquisito toda aquela alegria que explodiu dentro dela, mas maravilhoso e muito bem-vinda, era paz de espírito. 

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Uma paixão, uma arma e la putana



Parte III



Henrique havia bebido três doses de tequila, andava feito louco pelo salão do clube com cara de poucos amigos procurando Maria e o parceiro de dança. Nada encontrou. Deixou o clube com asas nos pés, seus lábios não sabiam sorrir e dispensou os cumprimentos aos amigos.

Combinou velocidade e raiva, caçando a namorada em várias partes da pequena cidade alagoana. A praça na frente da Igreja matriz estava deserta, os coretos solitários, e gatos que vagavam na noite sem mesmo sentir frio. Henrique tinha olhos atentos e o sangue fervia de raiva dentro de suas veias. Passou pela lanchonete que já estava fechada. Descansaria apenas quando a encontrasse com seu parceiro desconhecido.

***
Maria levou seus amigos para sua casa, a varanda estava iluminada e sua família já descansava. Estavam entre risos e mãos dadas, Lúcia e Bruno havia passado das indiretas e jogo de olhares para os beijos e Maria junto com Marcos conversavam aos risos.

Ouviram pneus cantando na frente da casa, logo deixaram as cadeiras quando avistaram Henrique surgindo feito um vingador de dentro do carro. Marcos apressou-se em descer as escadas , mas Maria o segurou pelo braço e colocou-se na frente dele. Bruno estava surpreso com a chegada do amigo, quis cumprimenta-lo, mas Henrique logo gritou com ele: - Nem fale comigo seu traira, por que deu carona para esse cara ai e a Maria? Você é idiota?

-          Cala a boca Henrique e fala baixo na frente de minha casa... Maria estava furiosa.
-          Vai embora agora seu sacana... Henrique continuou a gritar, dessa vez com Marcos que tirou Maria de sua frente e desceu as escadas correndo, havia raiva em seus olhos e descontaria no outro. Maria o seguiu. – Não Marcos. Vai embora você Henrique...
-          Ele vai... Henrique sacou das calças uma arma e apontou para Marcos a poucos metros dele. Apenas o portão e o muro baixo os separavam. Lúcia assustada perdeu a voz. Bruno desceu as escadas para junto de Maria que passou para frente de Marcos como um escudo.
-          Abaixe isso agora e vai embora daqui, seu sacana, eu não quero mais olhar na tua cara e é com ele que eu vou ficar, você está me ouvindo...
-          Maria...
-          Vai.. vai agora... Maria gritou sem mesmo se importar com a família que dormia dentro de casa. Henrique abaixou a arma olhando nos olhos dela que cresciam no rosto, numa expressão séria e furiosa. Ele voltou para o carro e antes de dar partida gritou colocando para fora toda a sua fúria. Partiu.

Lúcia do alto da escada respirou aliviada e sua voz então voltou, foi ter com os amigos. Maria despediu-se silenciosamente, a raiva havia deixado ela sem forças e logo entrou em casa. Seus amigos foram pouco depois.

Uma paixão, uma arma e la putana


Parte II


Passos animados, rostos bonitos e felizes circulavam no clube. Maria e o casal de amigos logo encontraram velhos conhecidos e socializaram. Diferente de quando ainda estava a caminho para o baile, agora ela já não se importava com Henrique e la putana, desejava dançar a noite inteira e a música a convidava a isso. Não só a música como também o olhar sedutor de um moreno do outro lado do salão.

Lúcia e Bruno distraídos com as indiretas de ambos, não perceberam quando a amiga sorriu para o moreno que se aproximou lhe oferecendo a mão para dançar. Uma conversa envolvia o casal, Maria esqueceu-se por instantes da situação que a cercava desde aquela tarde. O rosto do rapaz tocava o seu com os lábios tão perto de um beijo, quando por cima do ombro largo do outro viu o marrento do Henrique entrar no salão. Estava atento, olhando para  todos os lados à sua procura, quando foi abordado por um grupo de amigos, tapinhas nas costas, algo como: - E aí cara! E lá mesmo ficou, perdido nas conversas bobas dos rapazes.

Maria não desviava a atenção de Henrique, que de longe não a reconheceu. O parceiro de dança estava aproximando-se cada vez mais de seus lábios, devia resistir ou aquilo se transformaria em uma guerra.

-          Você parece distraída com alguma coisa, são seus amigos? Podemos ir lá...
-          Não! Negou prontamente. – Não, é melhor não. Eu preciso ser sincera com você, até mesmo para lhe proteger.
-          Não estou entendendo nada. Sorriu.
-          O meu namorado acabou de chegar...
-          Você tem namorado...
-          Sim. Mas, o problema é que ele é meio violento e não quero envolver você em problemas...
-          Tenho certeza que ele é só um metido a machão...
-          Não queira pagar para ver, por favor!

Henrique percebeu os passos de sua namorada e do moreno desconhecido, seu desejo foi de ir até lá, os seus olhos não negavam o ciúme que o dominava, mas foi impedido por seus amigos que o arrastaram para o bar.

Bruno e Lúcia dançavam no meio do salão, quando Maria e o parceiro de dança se aproximaram. A amiga convenceu o casal a ir embora, saíram á francesa deixando Henrique. No carro, Maria explicava aos amigos o que era aquela fuga, o moreno que a acompanhava ainda não entendia o porquê de tudo aquilo.

-          Mas, a festa estava começando Maria, o Henrique estava lá com aqueles babacas dos amigos dele, não deve nem ter visto vocês...
-          Lúcia... hey, babacas não, eles são meus amigos também... Bruno falava sem tirar a atenção da pista.
-          Eu disse a ela que não precisava a gente sair correndo de lá...
-          Vocês acham que conhecem o Henrique e você Marcos não sabe mesmo quem é ele. O Henrique já estava bebendo e depois como adora brigas eu não queria ficar e pagar pra ver!
-          Então... Pra onde vamos? Porque ainda é cedo... Falou Bruno, ainda pensando em flertar com Lúcia.


***


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Uma paixão, uma arma e la putana

Parte I



Trazia um sorriso fácil nos lábios, caminhar seguro, e uma ansiedade que parecia não combinar com a sua postura de homem briguento e machista. Entrou na lanchonete sem mesmo dar atenção as vozes que misturavam-se e conversas que se confundiam, pois era nela que focava o seu olhar, os seus sentidos. Seu nome era Maria, e os seus olhos não expressavam a mesma alegria que os dele em vê-la.

Sentou à mesa junto a ela, suas mãos desejavam tocar o rosto fino da moça, mas ela se esquivou, virou o rosto e o nos lábios o bico estava estampado de insatisfação. Ele respirou , apenas um olhar para o mocinho da lanchonete e logo uma cerveja estava servida.

-          Então, o que ta pegando?
-          O que ta pegando? Você é bem engraçadinho Henrique. Eu sei, todo mundo tá sabendo que você anda me enganando com uma puta... e não adianta fingir que não sabe de nada...

Os olhos de Henrique pareciam querer saltar do rosto, como ela havia descoberto tal coisa? A cerveja do copo desceu em um só gole pela garganta seca de nervoso.

-          Você só pensa que sou idiota, só pensa... Me telefonaram para contar as suas safadezas, seus amigos sabem, minhas amigas, todos  dessa cidadizinha sabem...
-          Calma Maria... foi só uma aventura sem graça...
-          Aventura sem graça? Você a traz aqui onde a gente freqüenta e é só uma aventura sem graça? Olha aqui Henrique, suas aventuras para mim sempre foram besteiras, mas você levar suas vagabundas para o local onde freqüentamos, ah isso não.
-          Eu vou terminar com ela.
-          E eu vou para a festa de hoje á noite e sem você. 

Maria estava prestes a deixar a mesa, as mãos seguravam firme a bolsa. Henrique a segurou em um dos braços e a resposta foi um olhar metralhador de Maria em cima de sua mão. Ela sacudiu o seu braço para que ele largasse.

-          Não me toque dessa maneira.
-          Eu vou com você hoje à noite, antes marco com ela, termino tudo e te encontro lá. O Bruno te leva na festa e encontro vocês.
-          Não demora a fazer isso... Tchau!

Maria deixou a lanchonete com um sorrisinho vencedor nos lábios, enquanto Henrique calculava planos para resolver a situação em que estava. Cerveja gelada novamente na garganta e logo partiu.
***
A chuva caia um pouco agitada naquela noite. Maria aguardava a carona para a festa, parecia uma dama pintada em um quadro, vestida de vermelho emoldurada pelas bordas de madeira pintada de branco da janela. Gritou algo como: - Mãe, até mais! E logo foi ter com os amigos no carro estacionado na porta. A noite estava apenas começando.

Bruno, amigo próximo de Henrique, possuía umas entradas precoces na cabeça jovem de 22 anos. Risonho, adorava as boas piadas mesmo em horas mais tensas. No banco da frente do carro, ao seu lado, estava Lúcia, amiga de Maria que flertava com Bruno há alguns dias.

A chuva não dava trégua, no rádio tocava baixinho um programa voltado para o rock anos 50. Lúcia e Bruno cantarolavam juntos, entre risinhos e olhares de interesse. Maria, sorria assistindo a cena dos dois, mas hora ou outra voltava os pensamentos da safadeza aprontada por Henrique. Despertou da distração ao ver o carro do namorado estacionado em uma esquina, chovia, a água escorria nas janelas de vidro, mas ela o reconheceu dentro do veículo acompanhado pela outra. Gesticulavam, e sua curiosidade lhe provocava, desejando saber o que conversavam naquele instante. Bruno buzinou para o amigo e seguiu. 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

"Tão sensível as coisas simples da vida"




“Tão sensível as coisas simples da vida”... (do filme, O Fabuloso destino de Amelie Poulain)
Talvez alguns nos digam bobos, ou ainda voador demais. Me lembrei dessa frase hoje cedo ainda com os olhos sonolentos, mesmo após um banho de cabeça e tudo com água bem fria.

Havia um arco íris riscando o céu, fazia algum tempo que não via um e mesmo com aquela nuvem cinza por detrás daquelas cores, estava lindo. As pessoas não percebiam, não se importavam, mas estava radiante. Homens trocavam palavras na calçada, proseando certamente sobre a expectativa do futebol de hoje à noite ou mesmo sobre o sangue dos jornais de ontem. Lá estavam também os pedestres concentrados em seus passos rápidos e os carros e seus donos apressados no asfalto e meu pai oferecendo sua atenção completa ao trânsito. Nenhum deles viram o arco íris desenhado no céu e a nuvem cinza que escondeu aos poucos aquela beleza. 

sábado, 7 de maio de 2011

Sorriso largo no rosto



O que me ocorre
É uma vontade louca de viver.
Sair na chuva e correr
Sentir os pingos me molhar
Ver o barco no rio atravessar.
E sorrir, sorrir...
Rir do mundo, de tudo.
Dos rostos que também sorrir
Das horas que me apertam
Dos dias que me esperam.
De tudo, para tudo.
Dormir e acordar outra
Mais feliz. 
Sorriso largo no rosto.

sábado, 26 de março de 2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

O homem com o cigarro



Não havia sax, nem mesmo baixo, mas as notas tocaram claras saindo dos fones em seus ouvidos quando ele chegou. Aqueles passos sem pressa acompanhavam as batidas do som do Morphine, e ele nem imaginava que fazia parte de um filme imaginário na cabeça de uma desconhecida.

As pernas vestiam um jeans velho, o braço protegia um jornal de quinta, enquanto as mãos se ajudavam para acender o cigarro. O homem com o cigarro. Era assim que o chamaria, não possuía nome ainda, não conhecia nem mesmo a sua voz.

Os olhos dela deixaram os gestos dele para ver rapidamente se seu ônibus se aproximava, mas nenhum ruído, nenhum sinal da carroça velha. Então voltou com seus olhos espiões para o rapaz.

Discretamente sentou-se no banco vazio do ponto de ônibus, enquanto observava o rapaz que estava a poucos metros. Ele não possuía chapéu ou mesmo suspensório, mas lhe fazia lembrar o John Lurie nos filmes do Jarmusch, e poderia vê-lo em uma imagem preto e branco se fechasse os olhos. Segurava com uma das mãos o jornal, procurando se informar das principais notícias e ao mesmo tempo liberava a fumaça tragada do cigarro para o vento.

Então um ônibus se aproximou, e estacionou trazendo para o ponto uma fumaça negra, e um barulho que lhe irritava os ouvidos. O barulhento parou diante de seus olhos, leu o letreiro e não era aquele que a levaria ao seu destino, era o ônibus esperado pelo desconhecido que passou por ela deixando um cheiro de cigarro acariciar o seu nariz e partiu.

Em breve voltaria a vê-lo novamente. O desconhecido. 

Ennui...




Pois sim, o que Anna Karina diz nos primeiros minutos desse vídeo é mais ou menos o que pensava outro dia.

Poderíamos, às vezes, ter o poder de mudar de corpo e de mundos quando a nossa vida caminhar em um dia sem graça.  (Um domingo, por exemplo, pois é um dia triste). Outro lugar, “outro mundo, outro mambo”

Não reclamo de minha vida, gosto dessa estrada de 21 anos, mas é agradável um ritmo diferente de vez em quando. Rotinas não me agradam muito, afinal sou aquariana. Gosto de pessoas conversando, passando, um pouco de agitação, mas também me agrada o silêncio e traquilidade.


E assim o tédio some e reaparece, e o meu tédio adora os domingos. 

sábado, 12 de março de 2011

Eva


A tarde estava tranqüila, o mundo funcionava do lado de fora, mas Eva não se importava. Estava mergulhada em uma leitura que logo concluiria. Dias atrás ganhara um romance, “O Amante”, de Marguerite Duras. Há uma semana perdia-se nas páginas entre as linhas e palavras que revelavam a história da escritora ainda quando jovem e seu amante chinês e homem maduro.

Encontrava-se sentada no sofá, sua concentração estava ali nas últimas páginas. Os olhos dançavam da esquerda para direita, lendo, penetrando em cada frase, cada parágrafo. Seus olhos atentos, possuindo sede cada vez mais naquela leitura leram as últimas palavras do livro. Seu peito suspirava diante da história que não lhe pertencia, mas que era como sua.

... Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até a morte. (Do livro “O Amante”, de Duras)

Olhou além, por cima do livro, perdia-se dentro de pensamentos secretos, a história estava ali ainda, presa em sua mente. Refletia sobre a garota de 15 anos e seu amante chinês?

Era cedo ainda, estava no meio da tarde. Foi ter no quarto de sua mãe, levou o livro junto, em mãos, junto ao corpo. Seus passos a levaram para diante do guarda-roupa, não olhava para os lados, não dava atenção a nada naquele quarto a não ser ao guarda-roupa. Em sua mente como em uma fotografia podia ver o que procurava. O móvel estava aberto mostrava-lhe blusas, calças, saias, mas o que procurava era aquele velho vestido de sua mãe. Sua mão buscou no fundo do guarda-roupa a seda, a cheirou, pálpebras fecharam e abriram como se lhe trouxessem lembranças. Um sorriso tímido nasceu nos lábios. Em poucos minutos abandonou o livro na cama e vestiu o pano fino, o corpo que estava na frente do espelho parecia habituado a vestir-se daquela maneira. Voltou ao móvel e de lá tirou o cinto, o cinto de couro marrom. O envolveu na cintura, fechou e pronto. Novamente diante do espelho, o pente penetrava com seus dentes entre os fios, dividiu em duas metades e delas fizera surgir duas tranças. Nos lábios passara o velho batom num tom escuro de vermelho. Tocou com uma das mãos o cabelo deu-se conta de que algo lhe faltava. –O meu chapéu?

A campanhia disparou, quem era? Seus olhos cresceram no rosto, deixou o quarto e mesmo em passos lentos logo estava na sala. Ela, suas tranças e seus lábios avermelhados. Rodou a maçaneta e abriu a porta, lá estava, ele. O outro a olhava curioso havia um sorriso querendo explodir em sua boca, mas conteve no primeiro momento. Atravessou a entrada e agora observava ela fechar a porta, voltou-se para ele possuindo a mesma expressão com a qual o recebera ao abrir. Estava em silencio, sem riso, sem seriedade. Não havia nada. Apenas ela em silêncio e com aqueles olhos que pareciam lhe atravessar fundo o corpo.

- Que roupa é essa? Ele perguntou deixando finalmente o sorriso que havia escondido aparecer. Não obteve resposta da outra. Ela o olhou apenas, parecia menosprezá-lo por um momento e sua pergunta boba, sem graça, de deboche.

-Eu que pergunto a você. Que roupas são essas que você veste? Onde está aquele homem elegante, aqueles belos sapatos de antes? Onde está o meu amante de antes?

Enquanto ela sentava-se no sofá de pernas cruzadas, esperava uma resposta do outro com aquele olhar rebelde, sorriso irônico escondendo dentes nos lábios avermelhados. O outro não se conteve, novamente lhe veio e dessa vez do fundo da garganta uma gargalhada dessas que o fez ficar descontrolado. Não conseguia parar de rir. Ele foi ter com ela, sentou-se ao seu lado tocando o rosto dela.

-Que história Eva, que papo estranho, tá louca? Você bebeu o que hein?

O sorriso irônico desmanchou-se dos lábios dela. Desviou o rosto da mão que lhe fazia carinho e avançou sobre o outro lhe roubando um beijo. Não eram os mesmos lábios de antes que o beijava, foi essa impressão que o outro teve. Havia algo, menos doce, mais ousado que antes; as mãos que lhe tocaram o rosto enquanto lhe roubava aquele beijo também eram outras, eram mãos que o prendiam, que o arrastava para ela.

-Meu nome não é Eva. Quem é Eva, do que você está falando?

Não houve respostas. Ele parecia aéreo, seus olhos observavam aquela diante dele, analisando. Aqueles olhos estavam diferentes, o dominava, parecia devorá-lo. Os braços que sentia dar a volta em seu pescoço eram mais decididos, menos medrosos, o levavam para junto da outra. Sua namorada havia mudado. A conhecia como amável, olhos tímidos que pareciam medrosos em encará-lo fundo nos seus, lábios doces que precisavam ser provocados para matar o desejo de um beijo. Um pouco silenciosa às vezes. Chegavam a ouvir suas próprias respirações enquanto o tempo passava e eles abraçados no sofá da sala de estar. Essa era a Eva que ele conhecia, era a Eva que parecia não estar mais ali.

Desenvolvera outro Eu, ou melhor, trouxera de seu interior outra metade de si desconhecida para o mundo dos outros. Essa outra metade era reprimida, travada. Possuía olhos que penetravam fundo em olhos desejados, mãos que buscavam sem medo o que lhe roubava a atenção. E principalmente, palavras que saiam sem receio de lábios decididos. Era outra Eva. A ousada.

-Melhor você ir trocar de roupa a gente vai se atrasar para o filme.

-Que filme? Eu não quero sair vamos ficar e aproveitar a tarde aqui mesmo.

-Eva, sério. Eu tô gostando e tudo dessa sua... Enfim... Mas você está muito estranha...

-E você está muito chato.

O menosprezou. Deixou o sofá decepcionada, estava agora de pé no meio da sala diante dele, o olhava de cima para baixo, esperando uma reação da parte do outro. Ele estava lá sem moral alguma para com ela, bestificado com toda aquela atitude que era novidade aos seus olhos. Fez que ia dizer algo, mas nada saiu de sua boca muda, parecia engolir palavras que arranhavam sua garganta, parecia confuso. Naquele instante começou um diálogo de olhares, uma comunicação silenciosa, porém era como se falassem aqueles olhares.

Os olhos dela diminuíram, lembrava o olhar de antes, aquele da menina doce às vezes um pouco silenciosa. Mas não era a de antes. Aqueles olhos diziam fixos ali no do outro, observando de cima para baixo; dizia com aquele ar autoritário e teimoso que ele devia se levantar e decidir se atenderia aos desejos dela ou iria embora. Ele por sua vez começava a sentir um nó dentro de si, uma dor pelo desprezo daquele olhar, pela frieza. Conseguia comunicar o sentimento de tristeza que começava a dominar ele através dos olhos miúdos.

Olhares tão fixos e silenciosos que pareciam não respirar por alguns minutos. Ele de baixo ainda imóvel no sofá, ela de pé diante dele, braços cruzados e mandões, e ainda um sorriso quase dócil que uma vez ou outra nascia nos lábios de maneira discreta, sem dentes.

Parecia cansado de ser provocado, deixou o sofá como em um salto. Suas mãos foram sem paciência nos braços dela como um militar furioso, no rosto os lábios eram sérios. Os olhos pareciam penetrar fundo nos dela que cresceram imediatamente no rosto feminino, parecia assustada, mas não desmanchava aquela postura de teimosia, de rebeldia que a dominava.

-Seu nome é Eva...

A sacudia, sua impaciência impedia que pensasse no que estava fazendo, não percebia que parecia agressivo. As pálpebras dela se fecharam levemente e em poucos segundos abriram-se como se despertasse de um sono leve. Eram olhos miúdos, não mais aqueles grandes e assustados de poucos segundos atrás; os lábios mexeram acompanhados de um estalido quase surdo e disse:

- Rui.